Pra arranque de ‘recomeço’ na conversa.

Faz muito tempo que eu não escrevo. É certo que, na verdade escrevo todos os dias. Uns porque sim, outros só porque tem que ser. São, aliás, raríssimas excepções aqueles em que, por um motivo ou por outro, não o faço. Acontece até que nos últimos anos me pagam para o fazer. Pagam e eu gosto. De receber e de escrever, porque há que confessar que não deixei de gostar de escrever só porque me pagam para isso. E, no entanto, eis-me aqui a reconhecer: faz muito tempo que não escrevo. Como vem lá a ser isso afinal, perguntar-me-ão. Simples, eu responderia mesmo não podendo garantir que se sentiriam respondidos. Venho escrevendo sem escrever, ou escrevendo não escrevendo, ou não escrevendo escrevendo. Acredito que a escrita dê na gente assim como o gosto pela pescaria dá em tanta gente que conheço. Você já reparou nos pescadores? Já se deu conta de que continuam a sair para o mar mesmo que ele não esteja de feição para peixe? Já notou que continuam armando um banquinho no paredão, mesmo que já não pesquem coisa nenhuma e sempre regressem a casa com o balde vazio? Pois bem, com a escrita não é muito diferente. A gente sempre lança a linha, ainda que depois constate que nada veio na ponta do anzol. Se é porque se perdeu a arte, a paciência ou a sorte, eu não sei. Nunca fui muito dada a pensar sobre o caso, embora nos últimos temos me pegue várias vezes reflectindo no assunto. Ou reflectida no assunto, o que talvez venha a ser mais exacto. Umas vezes sou levada a achar que perdi a mão, outras a vontade. Outras, nenhuma das duas. Essas são aquelas em que culpo a vida, a sua sobrecarga ou os seus vazios, o tempo ou a falta dele, o coração, a alma, a pele e o que por vezes se lhe entorna pela superfície, enfim, tudo o que me vem à mão e à lembrança e que me pareça possuir suficiente importância para ter força de razão e fundamento.
Nos intermezzos é certo que me entreguei a vários projectos. No papel e além dele. Coloquei alguns dentro de envelopes, outros entre a lombada dos cadernos, outros ainda lancei no éter sempre volátil do ciberespaço. Não posso dizer que a eles me tenha alguma vez sentido entregar de corpo e alma, como outrora já me sucedeu, mas posso afiançar sem faltar com a verdade que a todos comecei com apaixonado entusiasmo. Blogs, inclusive. Certo, porém, é que nada disso evitou que fossem esmorecendo, esmorecendo, esmorecendo… até irem dar naquele exacto ponto onde, de tão empalidecidos, de tão esventrados do encanto inicial, acabaram se acabando, sem nada que ao meu alcance houvesse que pudesse ser feito para os deter à boca dessa recta fatal, desse pedaço de percurso moribundo, que já se começara a anunciar, e que é o que vai do mais absoluto fastio até ao tédio e, posteriormente e num ápice, dele à total ausência de reconhecimento. Precisamente (!) de reconhecimento, onde reside esse crucial ‘X’ que é condição primeira e necessária para dar sentido às coisas: rever-mo-nos nelas.
Chegada a esse ponto, poderia avançar à partilha um rol de constrangimentos vários e responsabilizá-los pela cruel constatação que faço: faz muito tempo que não escrevo. Poderia falar da exposição pessoal, que a partir de certa altura se revelou perigosa e traiçoeira como jamais sequer a imaginara; das inevitáveis implicações públicas do texto contido nos meus textos; deste exílio forçado que me repatriou para a Europa e me arrancou sem dó nem piedade da indigenia, da florestania, de latinidades, de lusofonidades e afins aficcionalidades; do espartilho das novas funções, que me interditam os instintivos tópicos dos trópicos; dessa altercação de coordenadas que revirou meridianos e paralelos, e que, me suprindo à minha gente, à minha terra, aos meus referentes e pautas, às minhas paixões, aos meus amores, aos meus sonhos, quimeras, caprichos, devoções, às minhas quizílias, lutas, pelejas, convicções e militâncias, me deixou quase sem sumo e sem assunto, sem vivências nem emoções, sem nada sobre o que pensar e em nome do qual escrever. E por aí vai: etc, etc, etc.
Aqui sentada, nesse esforço de franqueza a que me entreguei sem ter planejado, vendo a alvorada romper nessa rosácea primaveril, tão atemporã nos meses de Janeiro do Hemisfereo Norte, reforçando a convicção de que o aroma do café fresco, acabado de fazer, pertence definitivamente ao inventário das melhores coisas do mundo, vêm-me à cabeça (mais uma vez!) certos ‘percebimentos’ que por sinal justificam o alinhavo de Toinho Alves nas ‘Afinidades’ de que não faço questão de segredo, aí na coluna de links à direita. Comentava ele, há poucas semanas:

Minha indisposição para escrever pode, assim, parecer um lamento repetitivo de quem quer retirar-se do mundo.

Pelos vistos, tal como eu, seguiu «pensando um bocado a respeito da indisposição para escrever».

Percebi que os bloqueios emocionais, aos quais costumamos atribuir o nome de preguiça, têm um forte componente social. Explico melhor: não derivam apenas de dramas estritamente pessoais, essas pequenas tragédias íntimas que são encenadas no teatro doméstico, mas perfazem tentativas de refazer um sentido de Destino, uma ação pública, um discurso na ágora, ou seja, na falta de outra palavra, uma política.

É pois por isso que, na largada desses novos Corvos & Caravelas, se me oferece mais que não seja um suspiro igual: «vamos ver se aos poucos junto umas letrinhas, assim, pelas beiradas».

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: