‘Solange, metade nossa metade deles’.

A Glória chamou a minha atenção para a carta do coronel Mendieta, sequestrado há 9 anos pelas FARC, publicada na íntegra pelo jornal El Colombiano. A denuncia segue por ocasião da mediatização do caso de Clara Rojas e Consuelo González e sua posterior libertação. Na manhã de 22 de Janeiro ouvi, com o mesmo confesso deleite com que sempre escutei a voz deste Mestre maior com que a vida fez o imenso favor de me entre-cruzar, os Sinais do dia de Fernando Alves, na antena da TSF. Nessa altura eu ainda não tinha blog. Agora tenho e como creio que há gente e palavras que o mundo perde se falhar a escuta, aloco-as no blog, mesmo que atrasadas.
Nesse jeito tão seu que o Fernando tem de folhear a imprensa do dia e que sempre o faz deter nos laivos que passam ao lado da manchete, interessou-o nessa manhã a presença de Clara Rojas, ex-candidata a vice-presidente da Colômbia, companheira de cativeiro de Consuelo nas malhas da guerrilha oculta na mata, em Madrid, para participar no IV Congresso Internacional de Vítimas de Terrorismo. Guiando os dedos pelo jornal Si Se Puede, chegou ao livro Últimas Notícias da Guerra de Jorge Enrique Botero. Nele se narra a história de amor entre Clara e o guerrilheiro Rigo, que tanto perturbou a opinião pública do mundo livre, incapaz de enquadrar e conceber o desconcerto causado pela notícia da paixão da vítima por um dos seus carcereiro. Da relação nasceu Emmanuel e a não menos apaixonante fábula de uma infância atribulada.
Tiveram os Sinais de Fernando, dessa manhã de 22, a argúcia de ver para lá dos protagonistas onde todos andávamos mergulhados e descortinar entre a amálgama dos figurantes um vulto vago de mulher. Uma guerrilheira engajada nas fileiras das FARC, bela, jovem, «nascida nas regiões duras da selva, onde o Estado não existe», como resumidamente a descreve Botero, que não só a conheceu como lhe confiou a tarefa de narradora das Últimas Notícias da Guerra.
Onde Botero é parco, Fernando é minucioso e é por isso que, parada dentro do carro já estacionado à porta do emprego, dando-me como sempre me dou o privilégio de escutar até ao fim os breves dois ou três minutos que dura a sua crónica diária, tenho a clara impressão de ver recortada diante de mim uma personagem crucial que, não obstante todas as atenções do mundo voltadas à trama – e vá-se lá a saber como! – a tinha atravessado invisível e sem espessura, até então. Até aos Sinais de Fernando, no dia 22.

 

Aqui fica, então: Solange, metade nossa metade deles.
E sim, é para ouvir. Basta clicar.

 

O livro onde surge narrado o episódio é este aqui:

 

 

(…) O jornalista colombiano Jorge Enrique Botero ouviu da boca – e olhando nos olhos – do “Comandante” Raúl Reys, que Clara Rojas havia tido um filho com um guerrilheiro, em princípios de abril de 2006 quando promovia seu livro “Últimas notícias da guerra”. Após esta versão de Botero e as declarações do intendente da Polícia, John Frank Pinchao, o governo da Colômbia resolveu pesquisar e chegou à conclusão que todos conhecem, inclusive o resultado do DNA já confirmado. O que não foi divulgado, até então, é como nasceu esta criança, de que modo foi tratada e porquê estava vivendo no Instituto Colombiano de Bienestar Familiar (ICBF).

Segundo Pinchao, através de uns buracos nas paredes de madeira do acampamento de nome “Caño Caribe” onde estavam, ele pode ver que Clara Rojas estava grávida. Meses depois do nascimento, ocorrido em julho de 2004, levaram o bebê e Clara gritava o nome do menino pedindo que o devolvessem mas ninguém lhe dava atenção. Pinchao conta que o pai de Emanuel é um guerrilheiro chamado Juan David, codinome “Rigo”, pertencente à Frente 54 e que comentava-se que iam matá-lo. O que é extremamente difícil de aceitar é que esta criança tenha sido fruto de um ato de amor, que a vítima tenha se enamorado e tido um romance com seu algoz; não quando se trata de gente para quem uma vida humana não vale nada!

Segundo um ex-diretor do hospital de El Retorno, para onde foi levado mais tarde Emanuel, “Não é costume das FARC deixar que as guerrilheiras tenham filhos e quando é demasiado tarde para abortar, ao nascer entregam a criança a milicianos nas cidades mais próximas”. E foi o que ocorreu. Como Emanuel teve um bracinho quebrado ao nascer (de parto cesareana) e sem cuidados adequados adquiriu impaludismo e leishmaniose, as FARC decidiram dá-lo a alguém para cuidar; entregaram-no a José Crisanto Gómez Tovar, um pedreiro paupérrimo e com cinco filhos que também era raspador de coca. Ficaram de voltar no dia seguinte mas passou-se quatro meses quando apareceu uma guerrilheira que disse que o menino “era muito lindo e se parecia com seu pai, Juan David”, daí terem-no registrado com esse nome.

Com a situação financeira cada dia pior, as crianças doentes, e as FARC sem deixar qualquer ajuda, sobretudo dinheiro para criar o bebê, Gómez Tovar resolve mudar-se sem o conhecimento dos terroristas e procurar ajuda no hospital de San José del Guaviare. Lá, um homem que se identificou como sendo das FARC o ameaçou, obrigando-o a dizer que era parente do bebê, daí o motivo dele ter-se identificado como seu tio-avô. Um vizinha viu o estado das crianças e denunciou ao escritório municipal do ICBF que acolheu Emanuel.

Quatro meses depois voltaram a procurar Tovar para saber notícias de Emanuel e ele mentiu, dizendo que estava em tratamento e que estava bem mas ressente-se de que nunca lhe perguntaram se precisava de dinheiro. Há três meses o “Comandante Jerónimo” disse que precisava falar com ele sobre o menino e ameaçou toda sua família se não desse notícias do bebê.

Em 18 de dezembro, quando as FARC já haviam montado o show junto com Chávez, as ameaças foram mais diretas e deram um prazo até 30 de dezembro para devolvê-lo. Desesperado, Tovar procurou o Defensor Públlico de San José del Guaviare e a Assistência Jurídica que o ajudaram e lhe ofereceram segurança.

No hospital diagnosticaram que Emanuel sofrera maltrato, negligência e abandono, além de apresentar desnutrição, impaludismo, enfermidade diarréica aguda, leishmaniose, fratura do úmero e retardo no desenvolvimento psicomotor. Mas Marulanda acusa Uribe de estragar a “brincadeira”, de querer impedir um “intercâmbio humanitário” e depois de reconhecer que a operação não aconteceu porque Emanuel não estava em poder deles, alegou que a entrega não foi feita por causa das “intensas operações militares no local” e que Uribe seqüestrou o menino. (…)

in Mídia Sem Máscara

 

Cf.
Botero conversa sobre o seu livro

O dia-a-dia dos guerrilheiros na selva

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