Bravoooo!

Desde que entrou em vigor, no dia 1 de Janeiro de 2008, a nova Lei do Tabaco não pára de afastar clientes, sobretudo na área da restauração e diversão nocturna. Face à escalada do prejuízo, já há empresários a ponderar despedir funcionários.

«Há muitos clientes que dizem que não vão voltar, depois de se aperceberem que o restaurante é não fumador», explica Ana Jacinto, secretária-geral adjunta da Associação de Restauração e Similares de Portugal (ARESP). De acordo com o inquérito realizado pela Associação de Bares da Zona Histórica do Porto (ABZHP), e concluído esta semana, 80 por cento dos estabelecimentos optariam pelo dístico azul, caso tivessem essa possibilidade. (…)
«Nos bares da moda, as quebras de receitas rondam os 30 a 40 por cento e nos outros estabelecimentos, que são a grande maioria, atingem os 70 por cento [relativamente a igual período do ano passado]», assegurou o responsável da ABZHP, baseando-se no inquérito.

Fonte: Diário Digital

Não obstante, e a fazer fé na mesma notícia, parece que o director-geral de Saúde, Francisco George, garante que «não há nenhuma questão polémica» em torno da nova Lei. Acrescenta ele, aliás: «o balanço que faço do primeiro mês de aplicação da Lei do Tabaco é altamente positivo».

Deve fazer-lhe sentido a indiferença ao impacto da proibição. Afinal, pertence ao pelouro da saúde, não lhe pagam para se preocupar com efeitos secundários no bolso e na economia familiar dos afectados. O pior é que, se reparmos com atenção, as consequências extravazam já em muito o aspecto financeiro. É certo que passam confortavelmente de raspão nos items sanitários, os únicos que importariam a Francisco George, mas acontece que atravessam o pulmão, percorrem meandros interiores mais sinuosos e, qual alfinetes, vão espetar-se direitinho no carácter – imagine-se só! – não apenas dos fumadores que desrespeitam a lei, mas no dos não-fumadores que correm a denunciá-los. Ora vejamos. Mais adiante, na notícia, lê-se que, de acordo com dados da GNR, entre os dias 7 e 27 de Janeiro foram levantados “apenas” [as aspas são assumidamente minhas] 43 autos por violação da Lei do Tabaco, tendo sido ainda detidas três pessoas por desobediência. «Dos 43 autos, 19 foram por iniciativa da Guarda e 22 por denúncias de terceiros», especificou o Tenente-Coronel Costa Cabral.

Não sei se hei-de lastimar mais a tragédia dos donos dos cafés, bares e restaurantes, se a pouca sorte que aguarda os funcionários que não tardaram a ser despedidos, se os tais “terceiros”, os autores das “denúncias” que motivaram a intervenção da GNR.

Mais que não fosse, e só por isso, esta Lei deveria ser urgentemente neutralizada. Por fomentar e incitar a comportamentos que, também eles atentam gravemente contra a qualidade do ar que respiramos, da atmosfera que habitamos e, acima de tudo, a saúde pública da ética entre cidadãos.

É que, por mais que me esforce por olhar para as coisas de vários ângulos, parecem-me sempre mais graves os deslizes de carácter do que os do vício. Mas isso talvez seja por ter crescido a ouvir dizer, desde o tempo dos bancos da escola, que a delacção é uma coisa muito, muito, mas mesmo muito feia.

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