Quando se trabalhava na imprensa e não nos media.

por José Roberto Guzzo

Houve um tempo em que os jornalistas não eram, como se diz hoje, fornecedores de conteúdo. Trabalhavam na imprensa, e não nos “meios de comunicação” ou na “mídia”. Não saberiam dizer o que seria uma “convergência de meios” ou uma “plataforma multimídia”, nem mesmo se topassem com uma delas no meio da rua. Não faziam “produtos”, mas apenas jornais, revistas e programas de rádio ou de televisão. Os jornalistas dessa época fumavam nas redações, tomavam bebidas alcoólicas em vez de vinho e contavam piadas que hoje deixariam o Ministério Público em pé de guerra. Quando um jogador passava a bola a outro, no futebol, chamavam a isso de passe, e não de “assistência”. Quando usavam a palavra “cego”, por exemplo, não ocorreria a ninguém achar que estariam praticando algum insulto nem se recomendava que escrevessem “deficiente visual”; achava-se, simplesmente, que o seu propósito era descrever uma pessoa que não podia enxergar. Quando escreviam “noivos”, referiam-se a um homem e uma mulher.

Nada disso quer dizer que se vivia num mundo melhor que o de hoje – ou pior. Era apenas diferente, e de todas as diferenças a mais interessante provavelmente está no fato de que nesse mundo não se falava, como se faz hoje com freqüência cada vez maior, que os jornais e revistas, daqui a mais algum tempo, vão sumir da face da Terra, como sumiram os cigarros Petit Londrinos, o cachorro Rin Tin Tin e a Rede Mineira de Viação. Tais profecias são feitas, em geral, com entusiasmo, quase com alegria – inclusive, e curiosamente, nas próprias empresas que têm jornais e revistas. Acredita-se, na verdade, que qualquer cabeça realmente moderna, ligada no futuro e capaz de entender o conceito de transformação tecnológica, não pode pensar de outro jeito. Nessa visão, a imprensa será fatalmente substituída pela internet, pela telinha do celular ou por alguma coisa ainda não inventada. O certo, segundo nos garantem os melhores especialistas em comunicação, é que “ninguém lê mais nada”. Não será surpresa se também começarem a prever, junto com o fim da imprensa, a extinção do alfabeto. Para que um alfabeto, pensando bem, se não haverá mais leitores? Em seu lugar poderia ser desenvolvido um sistema de imagens, sons e sinais – mais ou menos como já acontece, por exemplo, com esses chimpanzés espertíssimos que aparecem de vez em quando no Discovery Channel.

* publicado na revista Veja

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