Dias corridos e inúteis.

Há qualquer coisa errado aqui. Qualquer coisa que não faz sobrar o tempo, que deixa os dias áquem das margens e traz uma nova noite erguida pela frente, sem que nada se tenha concretizado nas horas de luz. No vai-e-vem dos dias todas as realizações permanecem mais uma vez adiadas. As horas não servem para nada e a impressão que se tem, a cada 24 horas que passam é que de pouco adiantam os mais firmes propósitos e as mais sinceras resoluções. A voracidade dos ponteiros em sucessão consome as mais nobres metas e tudo resulta dissolvido no nada que já era, antes mesmo de ter amanhecido. Por onde quer que a gente se mova, se puxar a conversa, confirma que essa íntima desconfiança de cada qual é, na verdade, uma suspeita secreta guardada em silêncio no fundo do peito de todos. “O tempo não chega para nada“, ouve-se dizer em jeito de lástima e confissão constante.
Fico pensando em todos esses ‘faciliadores’ que engendrámos a nós mesmos no mundo da civilização. Cada um nos foi apresentado como instrumento libertador dos minutos, como o salvador capaz de conseguir em nosso nome esse milagre supremo da multiplicação dilatadora do tempo e, consequentemente, do inventário das coisas que lhe cabem dentro. Temos carro para chegar mais rápido do que a caminhada nos levaria, um sem número de máquinas e electrodomésticos para fazer por nós e nos libertar para outras ocupações… e, no entanto, eis-nos nós: bulhando com o relógio desde que acordamos, esgrimindo contra o impassível avançar das horas ao longo do dia, chegados arrastados aos bordos da noite, com a insana sensação de, ainda assim, ter deixado tudo por fazer, tudo por cumprir, tudo pendurado à espera de nem se sabe o quê: ocasião, vez, oportunidade, eu sei lá.
A velocidade do tempo assusta todos, mas são cada vez menos os que conseguem suprimir-se a ela. Eu incluída.
Penso nos dias em outras paragens e sei que por lá é possível varar o calendário de outra forma. O tempo pode igualmente não chegar, mas dá inequivocamente para mais. Para muito mais do que por aqui. Disso eu sei. Disso eu guardo nota. A sensação que tenho é que de nada serve essa aparente garantia de maiores possibilidades agilizadoras do fazer, que nos acenam no ‘mundo branco’, nas praças onde se crê que a civilização mora.
É que é tão doloroso o que fica de tamanho desperdício!… Sim, tenho saudade. Saudade do tempo onde a vida é vida, ainda que mais difícil. Dos lugares onde a vida chega mais crua e dura, menos farta de tantos instrumentos aliviadores, mas com mais carne e osso, mais intervalo e alma, também. Por mais que páre, olhe, analise e observe, aquilo que me entra pela evidência é essa incomparavelmente maior capacidade de fazer algo, que assiste aos que dispõem de menos ferramentas que nós.
Sinto saudades do tempo índio, das horas caboclas. Saudades infinitas dessa percepção de que os dias são suficientes para fazer qualquer coisa e, de quebra, ainda largar dobra larga a essa coisa mágica de realmente não estar fazendo nada. Sentar num banco do largo, ver o crepúsculo se achegando, as pessoas regressando, saborear tragos lentos de algo mais fresco a escorrer pela goela e ficar a prosear até o sono nos procurar um por um.
Sinto saudade, sim. Alguém que se achegue com o convite para um confabulado manso, num fundo de quintal, numa rede à beira-rio…?! Por favor, faça-me esse favor que mais não peço.

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