A propósito de Cuba.


Sierra Maestra – Cuba

 

Já tinha comentado aqui, cedo na madrugada que na primeira página do Granma, se lia uma mensagem escrita pelo próprio Fidel Castro, a tornar pública a renúncia à Presidência do Conselho de Estado de Cuba. A partir das 5h da manhã, a informação começou a disparar como pipocas em todas as agências noticiosas e front pages de jornais online. Em Portugal a coisa rebentou depois das 8h nos telejornais da manhã, perto das 6h nas rádios e imediatamente a seguir nas primeiras edições online da imprensa. Nada de novo. Perfeitamente expectável, aliás.
Como já era de prever, o anúncio acicatou os algozes. As tais «habituais criaturas que salivam cada vez que ouvem falar sobre Cuba», como diria o Nuno Ramos de Almeida.
Ao começo da manhã, já não havia uma brecha vaga em antena, com o éter da rádio totamente preenhido por comentadores de política internacional, jornalistas, cronistas, colunistas, especialistas, e um sem número de gente que andava sedenta de opinar e vaticinar sobre os destinos de Cuba e das suas gentes. A manhã ainda vai no começo, a procissão mal saiu do adro, mas entretanto já ouvi um churrilho avassalador de enormidades. Entre as 6h e as 9h foi o horário nobre da baboseira porque, já se sabe, quem pensa bem, geralmente distrai-se a pensar até tarde e raramente acorda cedo. Disponível e à mercê ficam os restantes, que nesta ocasiões se apressam a fazer a barba e calçam sempre os sapatos mais rápido do que o costume para se disponibilizarem em fila ao comentário a preceito que a actualidade impõe e a urgência dos media exige, coleccionando em contrapartida mais uns minutinhos de glória, devidamente gravados em formato mp3 por mães, esposas, namoradas e afins.
Assistindo às emissões da rádio e da televisão, aquilo que mais me saltou à vista, esta manhã, foi a irresistível tentação dos jornalistas para dissertar sobre a notícia. A avaliar pelo que já presenciei, suponho que amanhã, quando saírem para a rua os jornais que andarão a ser cozinhados ao longo do dia de hoje, serão ainda mais fartas as pérolas. Até ao momento, e como infelizmente já vem sendo habitual, as observações mais delirantes/hilariantes têm vindo em especial dos que não tendo ‘ontem’ de conhecimento e curiosidade, têm contudo boas perspectivas de carreira, talvez maiores ambições profissionais e seguramente mais responsabilidade jornalística do que a sua experiência e aptidão legitimaria.
Alguém lhes deveria dizer que comentar não é “dizer coisas” e que “não gostar”, seja de uma pessoa, uma ideologia, uma terra ou uma gente, não é fundamento escorreito para abrir as vias do microfone e desatar a enxurrada de tudo o que, a esse respeito, se traz na alma e no coração.
Se é para falar de Cuba, então que se dê a palavra a quem sabe do que fala.
Como Lee Andersen, por exemplo, que durante anos andou por Cuba, importado em ver de perto a realidade que esta manhã faz a actualidade informativa, seguramente mais importado em observar do que em opinar, em conhecer do que em comentar. Mas isso era quando os repórteres de guerra iam à guerra. Agora só alguns (cada vez menos) vão. Os outros têm a internet. Para quê pesar nas despesas, demorar tempo, correr o risco de atrasar a edição e arriscar o couro? Profissional que é profissional, não é dado a esses desperdícios em que incorre a profissão.
É por essas e outras que, após duas ou três ralas horas a assistir ao trabalho de informação sobre o ‘frou’ do dia, considero valer a pena regressar à reportagem A Última Batalha de Fidel Castro , publicada a 24 de Julho de 2006, no New Yorker – antes portanto da hospitalização de Fidel Castro – , que meses mais tarde o Nuno Ramos de Almeida fez o favor de traduzir e disponibilizar à partilha. Que é para, pelo menos, situar o assunto. Que é para ver se a gente pode inquinar rumo e prosseguir falando, mas a saber do que fala.

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