Para um esboço dos 3 candidatos às presidenciais dos EUA.

Estava aqui a folhear a imprensa de fim-de-semana e a blogosfera e lembrei-me de um artigo do Arnaldo Jabor, que li há dias. Subitamente, dei comigo a pensar como é tão menos ‘cinza’ ler os jornais que se escrevem no Brasil!…

 

Será que não é tarde demais para a América?
por Arnaldo Jabor

McCain é prosa e Obama é poesia. McCain nos oferece sua resistência ao câncer, seus cabelos brancos, o sofrimento mudo, o prisioneiro de guerra que resistiu. Tudo nele é resistência e dignidade. Um avô baby-boomer. McCain nos oferece o republicano que evoluiu. Bush é o macaco, McCain é uma evolução da espécie. Obama é o novo. Mas, o que é o ‘novo’? Obama tem um slogan igual (sic) ao do Lula: ‘hope over fear’ – esperança além do medo, disse num discurso. Obama não passa a imagem do ‘pantera negra’, do negro revoltado. Ele é o negro cool. Obama é um populista, mas um populista para intelectuais, para ‘Harvard men’. Seu discurso é de alto nível e reúne as melhores reflexões progressistas do mundo de hoje, a solução para todos os problemas, com a palavra mágica ‘Change’.Obama é o negro sem rancor, o negro pós-moderno, que passou por Malcolm X, pelo Martin Luther e que atingiu uma espécie de síntese de todas virtudes políticas que almejamos: tolerância, a ecologia, a inteligência contra a mentira, antiguerra, pela superação do bipartidarismo numa busca de ‘entente cordiale’, contra os ‘lobbies’, contra a tirania do petróleo, contra o efeito estufa. É o mais culto dos três. Ele é um partido único e um grande orador, coisa que não existia mais. Empolga as platéias, vê-lo falar, com a simplicidade de uma estrela humilde.

Como Lula (que o faz por esperteza), Obama parece pairar ‘acima’ da política, talvez por um jovem messianismo. Seu programa é o mais abrangente, profundo, quase abstrato, como se ele pertencesse ao mundo da filosofia. Ele também dá aos brancos que o apóiam a oportunidade de se absolverem por séculos de discriminação racial. Ele diz: ‘Quero os democratas, os independentes e os republicanos.’ Ou seja, tudo. Ele diz: ‘Eu não falo o que vocês querem ouvir; eu falo o que vocês precisam saber!’ Essa é a sua mentira; ele fala o que todos querem ouvir, sim – ‘Change’, a magia da mudança, mesmo sem objeto palpável, a simples palavra, a solução sem explicação, a esperança não se sabe bem de que, o impossível inexplicável, alguma coisa pela qual valha a pena viver. Todo mundo quer isso. Obama é uma utopia, mas, a todos, parece crível, quando gritam ‘Yes, we can!’ Ele é um Viagra para a impotência histórica que vivemos.Obama é quase um trocadilho com Osama… Assim como Osama mudou a América pelo mal, Obama quer mudar para o bem. Vocês sabiam que o nome do meio de Obama é Hussein? Ele esconde – faz bem -, seria trocadilho demais: Barack Hussein Obama. Por outro lado, que ‘cool’… – um presidente negro com nome de árabe.É a volta do sonho americano, um sessentista jovem, revisto e atualizado.

Outro aspecto seu é a imagem da sexualidade viva. Ele é sexy, um JFK negro, ele é a retomada do presidente que transa, sua mulher tem corpaço, bumbum. JFK era sexy e, não por acaso, o sexy Ted Kennedy o apóia. Bill Clinton também era, mas Ted deu-lhe um golpe de morte, apoiando Obama. Essa promessa de sexualidade negra ajuda: ‘Once you go black you never come back…’, dizem.

Hillary não é sexy, tinha apelido de Miss Frigidaire na faculdade. E a imagem de sexo que ela evoca é a Mônica, enquanto o Bill vai atrás, mancando como um príncipe consorte, reparando a traição. É impossível vê-la sem pensar na ‘outra’. Mas isso dá ibope entre as mal-amadas, tantas na América…

Já o Bush não comeu ninguém. Por isso, fu..#&* o mundo…

McCain é um herói de guerra. McCain se coloca como competente, sensato (Hillary também), mas será que o americano hoje quer experiência ou esperança?

Assim como McCain é o passado dos ‘pais fundadores’, Obama é o futuro dos ‘novos filhos’ da América, cansados de tanto horror. McCain quer a volta não a um passado reacionário, mas a Roosevelt, Reagan e, mais para trás, até Lincoln. Propõe um ‘new deal’ que não explica direito qual é. McCain só vira bicho quando se fala do Iraque. Quer aumentar o esforço de guerra, contra os demônios de Osama; aí, surge nele o guerreiro republicano, aí ele fala em ‘hearts and minds’, fala em ‘forces of evil’, mas ao mesmo tempo condena Bush, Guantamano e Abu Ghraib. Mas, diz: ‘Nós somos melhores, nós temos Deus do nosso lado, mas não lembra que os EUA criaram Saddam contra o Irã, por exemplo. Fala do horror de torturas que teve no Vietnã, mas adoça-o falando de um vietcongue compassivo que o ajudou no sofrimento, fazendo o sinal da cruz e afrouxando seu suplício. Mesmo na tortura, Deus estava presente.

Assim como o McCain quer o passado, Hillary e Bill querem apagar um adultério.

Hillary se mostra como uma Medéia que perdoou. Papai e Mamãe é um de seus pontos-de-venda. Dois em um. Compre um e leve o outro de brinde. Bill continuará fiel ou vai aproveitar a mulher na Casa Branca e cair na gandaia?

Hillary é mais segura para o ‘centro’. Ela vai ter de bancar a republicana nos debates com McCain, e ele o democrata, se forem adversários.

McCain é legal também. É um homem de bem. Hillary também é legal. Obama idem. Todos três são legais. Esta é que é a novidade e o enigma. Os três são legais, mas ninguém sabe como vão tirar a América do buraco em que o macaco Bush a jogou. Os três candidatos são filhos do Bush, que os pariu. Obama é a vanguarda, Hillary é ‘main stream’, McCain, o restaurador da dignidade perdida do GOP. Os três são a revolta contra Bush, a pior coisa que houve no século. Todos são a favor de todas as questões modernas do bem, mas a solução é dificílima. A América que os espera na esquina da realidade: uma guerra sem-fim, um déficit brutal, uma recessão apontando, prestígio mundial a zero, liderança unipolar para as cucuias, China e União Européia bombando, dólar no brejo. Talvez os oito anos desse sujeito e sua gangue tenham danificado a história americana para sempre e a nossa, por tabela. Talvez seja tarde demais. De qualquer modo, o nível subiu. Vamos ver…

Há Bushes que vêm para o bem…

in Estado de São Paulo
publicado a 12 de Fevereiro de 2008

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