O ‘Apagão Mundial’ e o Homem que não aprecia o escuro.

Que a REN (Rede Electrica Nacional) questione e não aprove o Apagão Mundial de ontem, não é surpresa. Mas que um dirigente da QUERCUS, despreze o valor simbólico da iniciativa e minimize a sua importância, já me parece extraordinário.
É um pressuposto óbvio de que 5 minutos não chegam para colocar o mundo num patamar mais a salvo. Mas, mais que não seja, a velocidade com que o apelo se propagou e o elevado grau de adesão que colheu entre as pessoas, devia deixar-nos a todos mais animados. Inútil ou não, no quadro da ponderação do seu impacto no consumo global, é sintomático de uma receptividade generalizada às causas da Terra.
Acompanhei a luta da QUERCUS, desde os tempos iniciais, ainda com Viriato Soromenho Marques a encabeçar a peleja, no esforço por sensibilizar a opinião pública para a importância das causas do ambiente, num Portugal quase incapaz de enxergar que o verde também era cor. É inegável o muito que desde então se tem feito e conseguido para tornar de todos uma preocupação que, até há muito tempo, era de tão poucos. Basta recuar 10 anos: as questões do ambiente eram taxadas como ícones demodé de esquerda, olhadas como remanescentes freak, de uma geração hippie, pós ‘peace and love’, ‘make love not war’, que mais do que congregar, suscitavam uma brreira de rejeição preconceituosa e quase instintiva na sociedade.

Gostaria, sim, de ter visto o dirigente da QUERCUS comentar o Apagão de ontem de forma mais inteligentemente didáctica, aproveitando a disponibilidade dos que lhe foram sensíveis para pedir mais, de forma sustentada e continuada. O artigo de O Público faz referência ao Apagão de 1 de Fevereiro do ano passado, às vésperas da reunião em Paris do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, que recebeu o apoio de 82 organizações ambientais espalhadas um pouco por todo o mundo.

Apetece perguntar se este dirigente da QUERCUS considera a subscrição de iniciativas semelhantes só por ocasião de reuniões de cúpula. Apetece dizer à Câmara de Almada que Paris até a Torre Eiffel apagou e que para a próxima talvez valha a pena insistir na coragem e ir até ao fim. Como apetece lembrar à REN que nem em França, nem em nenhum dos outros países que aderiram ao Apagão houve registo de um colapso no sistema.

Fica o consolo de que pelo menos a organização ambientalista WWF valoriza o potencial de mobilização humana que está implicado em acções como esta. No fim do mês de Março, haverá nova Hora da Terra. A última juntou 2,2 milhões de pessoas e reduziu em 10% o consumo mundial de electricidade. Este ano mais de 20 cidades estarão solidárias.
Há boas razões para crer que, em Portugal, todos os que ontem desligaram os interruptores por cinco minutos estarão dispostos a fazê-lo de novo, desta vez por uma hora. Todos menos a REN e o dirigente da QUERCUS, que provavelmente continuará sentado à luz do candeeiro, à espera que o mundo se volte a acender para lhe explicar o quão inútil foi aventurar-se no breu.

Fica-me a esperança em Almada. Pode ser que desta vez outros argumentos colham mais do que os da instabilidade. Pode ser que, quando tocar a avaliar os efeitos na corrente, às razões de “ordem técnica” outras se somem.

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