‘Zelar ou não zelar pelo bom nome’, eis a questão.

A minha perplexidade de hoje deriva do cruzamento de dois factos, ambos envolvendo o mesmo protagonista e com a mesmíssima problemática de premeio: o direito à defesa do ‘bom nome’ de cada um’.Ontem, contei aqui que Paulo Portas, líder do CDS-PP e ex-ministro da Defesa do anterior Governo relâmpago-desastroso de coligação de Santana Lopes (actual líder da bancada parlamentar do PSD), vai levar o actual ministro da Agricultura, Jaime Silva, a tribunal por alegada ofensa ao seu bom nome, facto que o levou, aliás, ao bate-boca com o primeiro-ministro Sócrates na Assembleia da República.

Pois muito bem, Ana Gomes, actual deputada do PS no Parlamento Europeu, escreveu esta semana um post intitulado O bom nome de Paulo Portas, no blog que mantém na internet. No texto, Ana Gomes faz referência explicita a Paulo Portas, líder do CDS-PP, alude ao socialista Jorge Coelho e a «gente com velhas e enraízadas cumplicidades com o Dr. Paulo Portas», insurgindo-se com «a impunidade – política e criminal – de que há muito tempo, escandalosamente, vem beneficiando o Dr. Paulo Portas».
Segundo Ana Gomes estão a ser feitas Leis para beneficiar Portas, em matéria judicial. A afirmação foi, aliás, objecto de notícia e saiu posteriormente publicada no jornal: Ana Gomes acusa PS de proteger Portas.
Na sequência, o PND, partido minoritário de Manuel Monteiro – antigo líder do CDS-PP, que começou por ter Paulo Portas por braço direito e que depois foi por ele destronado da presidência do partido – já fez saber que pediu à Procuradoria-Geral da República que investigasse o fundamento das acusações da euro-deputada. É certo que Jorge Coelho rejeita a interpretação de Monteiro sobre os “recados” de Ana Gomes. Porém, Paulo Portas, nada disse sobre o assunto: mantém-se em silêncio e sem o menor comentário.

Ora, depois de uma semana em que assistimos aos épicos túmultos desencadeados por Paulo Portas para repôr o seu bom nome, a ausência de reacção às palavras de Ana Gomes não deixa de ser espantosa.
Basta observar o quão atarefado andou, não se poupando a esforços e lançando mão de todos os recursos ao seu alcance: insurgiu-se na Comunicação Social; levou a sua indignação para o Parlamento, fez dela tema dominante, sobrepondo-se ao próprio debate da nação que deveria ocupar o tempo dos deputados; exigiu de Sócrates um pedido formal de desculpas em nome dos “excessos” do seu ministro, não hesitando em se travar de razões com o primeiro-ministro ao ver essa pretensão negada; avançou com um processo por difamação para tribunal; contratou um dos melhores causídicos do País para o defender, ultrapassando até mesmo aquele que todos considerariam um impedimento de maior ao relacionamento, sendo Garcia Pereira o líder mitológico do PCTP/MRPP, ou seja, o representante extremo da tal ‘esquerda muito à esquerda’ que sempre deixou o ‘direitismo muito à direita’ de Portas com os nervos em franja e os cabelos em pé.

Assim como assim, Jaime Silva até foi vago, limitou-se a dizer que Paulo Portas possui «calotes políticos», referindo-se às «dívidas de explicações que ele não dá aos portugueses». Ana Gomes foi bem mais precisa. Mencionou as situações de «apuros» em que Portas se tem colocado, «seja nos tribunal da Moderna, nas investigações do Portucale, ou de fortuita passagem por alguma esquadra de bairro». Mencionou a «gestão ruinosa de Paulo Portas no Ministério da Defesa». Citou como exemplo a desactivação dos aviões A400-M e o célebre caso da aquisição de submarinos. Lembrou o «frenético fotocopianço [de documentos do Ministério] das horas da despedida» e considerou-o uma «despudorada violação das mais elementares normas de segurança do Estado». Responsabilizou-o no caso dos voos secretos da Cia, com escala consentida em Lisboa, ainda que carregados de prisioneiros com destino a Guantanamo e disse dele que «persiste no esforço de encobrimento dos “voos da tortura”».

A pergunta que, inevitavelmente sobrevém é esta: se Paulo Portas é assim tão cioso do seu bom nome e crê, como por toda a semana tratou de exemplificar, que em sua defesa qualquer espalhafato é ainda pouco, porque diabo não tugiu nem mugiu e deixou passar sem um único queixume ético-moral as afirmações de Ana Gomes? Porquê tanto aparato num caso e tanto recato no outro?

Entendem, agora, a razão da minha perplexidade?

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