Bom ‘Censo’.


Povoado na beira do rio Negro, Estado do Amazonas

No Verão do ano passado, o censo populacional organizado pelo IBGE, no Brasil, apresentava como grande novidade a utilização de computadores de mão com GPS. Todavia, a introdução da nova tecnologia, mais do que se constituir como um instrumento facilitador, revelou-se um obstáculo ao recenseamento, sobretudo nas regiões do Norte brasileiro. Para começar, foi necessário lançar mão a uma equipa que soubesse manejar os computadores, por oposição ao pessoal que costumava ser recrutado na região para desempenhar a tarefa de registar a população.
Resulta muito interessante a avaliação que, à época, Maria Wilma Garcia, coordenadora do censo, fazia à Folha de São Paulo. Relatava ela que os novos recenseadores, oriundos do meio urbano, desconheciam em absoluto as pessoas com quem estavam lidando:

Perdemos os caboclos da região porque eles não sabiam mexer nos computadores. Antes, eles pegavam a pastinha, caíam no mundo e voltavam depois de um mês com tudo pronto. Andavam a pé, a cavalo, de bicicleta, pegavam carona, dormiam nas casas das pessoas e eram conhecidos de todos.

Mesmo nos meios urbanos, é sabido o quanto é difícil obter colaboração das pessoas. O mesmo jornal, inclusive, noticiava aqui que vários moradores de condomínios de luxo de São Paulo, Teresina e Maceió, simplesmente se recusavam a abrir a porta aos recenseadores.
As dificuldades e resistências que se colocam à elaboração de um censo no Brasil, não são muito diferentes em Portugal.

Por volta de 1990, eu e outros estudantes colaborámos com o Instituto Nacional de Estatísticas (INE) na tarefa, naquilo que nos parecia uma ferramenta de extrema necessidade às correctas decisões político-sociais a implementar. Jovens, inexperientes e totalmente desavisados, não fazíamos a menor ideia das contrariedades e dificuldades com que a empreitada se iria deparar no terreno.

Recordo-me que fazia parte de uma certa ‘tropa de elite’ que, após alguns testes de perfil, foi designada para encarar os bairros mais pobres e problemáticos de Lisboa. A minha área incluía a freguesia do Alto Pina, que nesse tempo era um tecido contrastante, bem o coração da cidade, com condomínios de classe média-alta que, nos fundos, pegavam com aglomerados caóticos de barracos.

Rapidamente chegámos à conclusão que a dificuldade era idêntica, quer tratando-se dos residentes nas torres de luxo, quer dos moradores do bairro de lata. Talvez com uma agravante: é que no caso dos primeiros, nem conseguíamos chegar à fala com as pessoas, barricadas nos seus andares. Esborrachavamos a voz contra o intercomunicador da entrada e nem passávamos da portaria. Nos bairros de lata, pelo menos, as pessoas vinham à janela e abriam a porta, ainda que depois, assustadas e acossadas com a ideia de responder a tantas perguntas se recusassem a responder.

Percebemos ali, no terreno, que a natureza das perguntas, mesmo que factual e objectiva, não era recebida de ânimo leve. As pessoas tinham medo do que poderia ser feito com as suas famílias se respondessem, o que nessa época me perturbou bastante e levantou mil questionamentos: as pessoas tinham medo de falar e, mesmo quando falavam, receavam aflitivamente a verdade e as suas consequências. Perguntas aparentemente simples, como quantas pessoas habitam nesse agregado familiar? Tem TV? Tem telefone? Quantos filhos? E abortos? Quantos? Que idade? Qual a sua profissão? E o rendimento médio? Há desempregados, na casa?, tudo isso as pessoas receavam responder.

Com o tempo fomos aprendendo que era melhor não insistir, voltar mais tarde, pular aquela porta, tentar a seguinte, ou a outra, mas sempre voltar. A cada vez que regressávamos, percebíamos que os moradores da véspera, os que haviam recusado resposta, ainda assim nos cumprimentavam. Fazia um calor danado nesse Maio. Ás vezes ofereciam água fresca e um degrau na sombra para descansar e pousar um pouco a papelada. Nos entretantos, a conversa ia fluindo descomprometida de formalismos e, quase sempre, os moradores acabavam por revelar espontânea e naturalmente as respostas que tinham começado por se recusar a dar.

Acabou que, quanto entregámos ao INE o monte de boletins e questionários, apuração feita, o número de respostas em falta era maior nos condomínio de média-alta que se escusaram a dar ordem para abrir na portaria, do que nos “problemáticos” barracos dos bairros de lata, com quem havíamos passado tempo e convivido na soleira da porta e nas ladeiras de terra que faziam a vez das calçadas.

No artigo da Folha de São Paulo, a dada altura, narra-se o seguinte:

Para chegar a determinadas localidades, como o município de Atalaia do Norte (1.350 km de Manaus), leva-se seis dias viajando em embarcações de pequeno e médio porte. Chuvas na região também são factor de dificuldade, segundo o IBGE. Para Garcia, muitos recenseadores desistem durante o levantamento ao se deparar com essas dificuldades. Em nove Estados, novos concursos tiveram de ser realizados, em junho, para ocupas as vagas que não foram preenchidas. Durante a pesquisa, ao menos cem computadores de mão foram roubados ou furtados –em um dos casos, 26 equipamentos foram levados de dentro de um carro, em Goiás.

Aquilo que me resulta óbvio é que o recenseador “caboclo” mantinha com os habitantes a proximidade cultural que legitimava a demanda do poder público e do IBGE. Mais: que lhe permitia obter a colaboração necessária das populações para regressar com os dados pretendidos. Durante anos, trabalhou assim. Sem trapézio, sem rede, sem condições, mas trabalhou. O levantamento era feito e as informações eram recolhidas. Ironicamente, porque foi mal treinado e instruído pelo Estado, perdeu o emprego para pessoal mais capacitado e ágil, que sabia manusear o tal computador com GPS que, chegados a 2007, o progresso entendeu ser hora de disponibilizar. E mais ironicamente ainda: o recenseamento entrou num impasse, justamente porque estes recenseadores “impreparados”, cuja única ferramenta de trabalho era a proximidade, a confiança e o entrosamento no complexo tecido social, cultural e geográfico da região foram banidos da equipa montada para se encarregar da tarefa.

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